quarta-feira, 7 de março de 2012

Florbela Espanca

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah!  Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca

domingo, 4 de março de 2012

Ferreira Gullar

Gullar



Estranheza do Mundo

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.


Ferreira Gullar

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Agualusa

José Eduardo Agualusa



Barroco tropical

O amor é inútil: luz das estrelas
a ninguém aquece ou ilumina
e se nos chama, a chama delas
logo no céu lasso declina.

O amor é sem préstimo: clarão
na tempestade, depressa se apaga
e é maior depois a escuridão,
noite sem fim, vaga após vaga.

O amor a ninguém serve, e todavia
a ele regressamos, dia após dia
cegos por seu fulgor, tontos de sede
nos damos sem pudor em sua rede.

O amor é uma estação perigosa:
rosa ocultando o espinho,
espinho disfarçado de rosa,
a enganosa euforia do vinho.


José Eduardo Agualusa / Ricardo Cruz

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Gullar

Ferreira Gullar




Pergunta e resposta

Se é fato que
toda a massa do sistema
solar (somando a de Saturno e Marte
e Terra e Vênus e Urano e Mercúrio
e Plutão, mais
os satélites, mais
os asteróides, mais) equivale
apenas a 2% da massa
total do Sol e
que o Sol não é mais
que um mínimo ponto
de luz na estonteante tessitura de
gás e poeira da Via
Láctea e que a Via
Láctea é apenas uma
Entre bilhões de galáxias
que à velocidade de 300 mil km por segundo
voam e explodem
na noite

           
 então pergunto:
           
 o que faz aí
           
 meu poema com seu

           
 inaudível ruído?
             E respondo:
           
 Inaudível
           
 Para quem esteja
           
          Na galáxia NGC 5128
           
 Ou na constelação
           
 de Virgo ou mesmo
           
        em Ganimedes
           
 onde felizmente não estás,
           
         Cláudia Ahimsa,
             poeta e musa do planeta Terra.


Ferreira Gullar

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Cecília Meireles

Cecília Meireles



Naufrágio

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.


Cecília Meireles

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Valterlei Borges


Mãos dadas

Não quero ser o poeta
        que reclama dores de amor
Não quero ser o poeta
        que bebe por falta de paixões
Não quero ser o poeta
        que se vinga através dos versos
Não quero ser o poeta
        que se vangloria de poemas inúteis
Quero ser o poeta
        que nas ruas anda de mãos dadas


março de 2006, Valterlei Borges

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ferreira Gullar

Estou lendo o último livro do Gullar, Em alguma parte alguma (2010), e estou maravilhado: não tem uma vírgula fora do lugar. Depois de 80 anos de poesia não poderia ser diferente...


Ferreira Gullar

Inseto

Um inseto é mais complexo que um poema
Não tem autor
Move-o uma obscura energia
Um inseto é mais complexo que uma hidrelétrica

Também mais complexo
                        que uma hidrelétrica
é um poema
(menos complexo que um inseto)

e pode às vezes
                       (o poema)
com sua energia
iluminar a avenida
             ou quem sabe
                                   uma vida.


Ferreira Gullar